São Luis do Maranhão, 18 de julho de 2018

quarta-feira, 7 de março de 2012

BOMBA. EX-PROFESSORA DA UNIBALSAS DIZ: "CONHECI A REALIDADE DA MISÉRIA EM BALSAS"

Manchete no jornal Folha de Londrina
‘‘Eu vivi o descaso, a política da fome e a exclusão social. Aprendi muito. Hoje sou uma pessoa melhor. Tenho outra visão da vida’’. A afirmação é da londrinense Walkiria Benedeti Cardoso Araújo, que passou um ano no Maranhão, entre 2010 e 2011, lecionando na Faculdade de Balsas (UniBalsas), no sul do Estado.

Para ela, é difícil expressar em palavras tudo o que vivenciou durante este período. 

‘‘Enxerguei de perto e ‘senti na pele’ o que a maioria das pessoas só vê na televisão’’, diz.

Bacharel em Direito, com duas especializações – em Bioética e Direito Público com ênfase em execuções penais – e mestrado em Direito Negocial pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Walkiria ficou muito interessada quando soube que a Faculdade de Balsas estava contratando professores para o curso de Direito. ‘‘Queria conhecer a realidade de lá. Enviei o meu currículo e logo acertamos tudo. Quando vi já estava com a passagem em mãos. Inicialmente fui sozinha e depois de 40 dias meu marido foi também’’, lembra.

O fato de o Estado do Maranhão apresentar IDH(Índice de Desenvolvimento Humano) entre os menores do Brasil, pouco mais de zero, pesou para Walkiria aceitar o desafio. Na época em que embarcou, ela já pesquisava há mais de oito anos a mistanásia, um tipo de eutanásia social, que significa a ‘‘morte da dignidade humana’’. 

Em uma das regiões mais pobres do Brasil, ela reuniu subsídios para publicar um livro sobre o assunto. O projeto está em andamento, mas ainda não tem data definida para ser finalizado. ‘‘Entrei nas comunidades, conversei com as pessoas, senti como elas vivem. Tive um choque cultural, pois é tudo muito diferente. 

"Conheci a realidade da miséria’’, ressalta. 

Além da pobreza, a professora ficou chocada quando começou a lecionar e se deparou com alunos analfabetos funcionais no curso superior. ‘‘Fui com garra para dar a melhor aula possível. Tenho especializações, mestrado. Mas quando conheci os alunos me deparei com uma realidade muito diferente.

Eu chorei muito’’, conta Walkiria, lembrando que chegou ao ponto de uma aluna dizer que a turma não estava entendendo o que ela dizia nas aulas. ‘‘Nesse dia fui para casa inconformada. Precisei mudar a forma de dar aula. Comecei a dar o básico, apenas o necessário’’. 


A passagem da londrinense pelo Maranhão não passou despercebida. 

Ela ficou incorformada ao perceber o poder da família Sarney, que domina o Maranhão há quase 50 anos.

‘‘Eu me pergunto quando a família Sarney vai devolver o Maranhão ao Brasil. Lá a política manda e a realidade social é um ‘caos’’’, considera. 

Prof. Walkiria Benedeti Cardoso Araújo
Diante disso, e após ouvir inúmeras queixas de alunos, orientou uma turma, cuja maioria estava na segunda graduação, a formar um Comitê de Ética e Cidadania, acionar o Ministério Público e questionar as injustiças. ‘‘Era preciso fazer alguma coisa. Como professora não podia deixar de passar o meu conhecimento. Mas admito que senti medo. Comecei a incomodar, tanto que o prefeito de Balsas (Chico Coelho - PMDB) queria me conhecer, mas isso acabou não acontecendo’’, relata, acrescentando que o aluno que encabeçou o grupo chegou a receber ameaça de morte. Segundo ela, a manifestação dos alunos aconteceu, mas nada mudou. ‘‘A realidade continuou a mesma. A única coisa que aconteceu é que o aluno que liderava o grupo foi demitido de seu emprego. Ele era repórter’’, lamenta.

O povo nordestino

Apesar das inúmeras dificuldades, Walkiria não se arrepende de tudo o que viveu. Após um ano, quando o contrato com a faculdade terminou, decidiu voltar para Londrina. Entre as experiências mais marcantes, ela destaca o fato de ter conhecido o povo nordestino, que segundo ela, é guerreiro e feliz. ‘‘As pessoas de lá não são infelizes. Pois não conhecem o que é bom na vida. Não sabem o que é teatro, cinema, shopping. Não são ambiciosas’’, define. 

Outra característica marcante é a religiosidade. ‘‘São católicos fervorosos. Vão para as ruas celebrar as festas populares’’, observa Walkiria, que aos poucos está retomando a sua vida pessoal e profissional. Atualmente é docente da Faculdade Dom Bosco de Cornélio Procópio.
Fonte: Folha de Londrina

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